«O RESGATE DA TRADIÇÃO DOS BARCOS TÍPICOS»
«Quando se fala em Moita, vêm logo à cabeça três coisas: a tauromaquia, as festas religiosas e, claro, a tradição dos barcos típicos. Esta última tem sido mantida, principalmente, graças ao esforço e dedicação do Centro Náutico Moitense que fornece toda a estrutura e apoio necessário aos canoeiros e fragateiros para que eles mantenham viva a tradição dos seus antepassados.
“Trabalhar o presente, preparar o futuro, mas nunca esquecendo o passado”. Com este lema, o Centro Náutico Moitense vem desde 1980, ano da sua fundação, a procurar resgatar a história e a tradição dos barcos típicos no concelho da Moita. “Quando o clube foi fundado em 1980, não havia barcos típicos na vila. Tínhamos só uma canoa e fomos buscá-la ao Montijo. Entretanto, com o nascimento do clube e o aparecimento do barco da Câmara Municipal, houve um entusiasmo e as coisas nunca mais pararam até hoje e, felizmente, tem vindo a desenvolver-se ano após ano e a aumentar na mesma proporção”, conta João Gregório, presidente do clube.
Somente nos últimos três anos, o clube lançou ao mar três barcos típicos, construídos todos com recursos e instalações próprias. Um exemplo da dedicação destes homens foi a construção do Gavião dos Mares, um barco típico de raiz que foi projectado e construído por moradores da vila. Para este ano, está a ser construído um barco ainda maior que deverá navegar já no início do próximo ano. Além da construção, o clube dedica-se também à restauração dos barcos típicos.
“Ao mantermos estes barcos tradicionais, estamos a manter uma série de profissões que já não existem, como o carpinteiro naval, o calafate, o ferreiro e o pintor. E, para além disso, estamos a manter também vivos as personagens dos barcos que são os fragateiros e que fazem parte da nossa identidade”, destacou João Gregório.
O clube está ligado às festas da Moita por inerência
Na vertente náutica das festas da Moita, o Centro Náutico promete, para este ano, manter a tradicional noite de fados que acontece no primeiro sábado da festa. Nesta noite os convidados reúnem-se no largo do cais para comerem leitão assado, cantarem fado e prestarem uma homenagem ao fragateiro, principal personagem da festa náutica. Para além da noite de fados, o clube vai promover o Cais Vivo, um projecto que disponibiliza os barcos típicos à população oferecendo passeios gratuitos pela orla da vila durante todo o feriado do município.
Além das festas da Moita, o clube vai realizar, no dia 5 de Outubro, a Regata Real, que vai reunir dezenas de barcos típicos no Tejo num percurso que vai da praia do Gaio Rosário até Belém.
O velho problema do assoreamento do rio
Embora o problema da caldeira e, consequentemente, do assoreamento do rio seja antigo, o Centro Náutico Moitense acredita que, para o ano, a situação será, de facto, resolvida. “Sabemos que as coisas estão a mexer. Sei que há um projecto para a construção de uma muralha com os sítios já definidos, mas as dificuldades são algumas. Entretanto, a Câmara Municipal afirmou-nos que a questão não está esquecida”, relatou o presidente do clube. Para amenizar o problema, o clube construiu, há alguns anos, uma comporta próxima da caldeira e desde então vem assegurando o funcionamento da mesma, o que tem estabilizado o assoreamento do rio. “Isso foi um exemplo prático de que realmente as portas fazem falta para o desassoreamento do braço do rio e não é por acaso que a Câmara Municipal está a manter o braço do canal de Alhos Vedros através do Moinho de Marés”, relembrou João Gregório.
Um olhar para o futuro
Apesar das dificuldades financeiras, inerentes a qualquer colectividade, o Centro Náutico Moitense tem recebido diversos apoios materiais que o permitem manter e desenvolver as suas actividades náuticas, em especial, a restauração e construção dos barcos típicos. “Temos que arregaçar as mangas e apostar nos patrocínios. É evidente que queremos mais apoios monetários, mas os apoios materiais que temos recebido já nos têm ajudado muito”, salientou.
Para o ano, o clube pretende mudar para as novas e amplas instalações que terão dois hangares destinados à secção de vela, de canoagem e um hangar específico para a restauração dos barcos tradicionais. “É um projecto aliciante porque o clube vai ficar com melhores condições. Esperamos que as coisas avancem e que a Câmara abra o concurso público”, finalizou o presidente.
CURIOSIDADE
O cais da Moita foi construído em 1722 e foi perfilado ao Norte no sentido de que todos os barcos que nele estejam atracados já se posicionem na rota Norte. O cais também resistiu ao terramoto de 1755. Em 1820 navegavam pelo Tejo cerca de 3 mil canoas típicas. Hoje existem pouco mais de 40.
A Regata do Atlântico Azul
No passado dia 15, o Centro Náutico Moitense promoveu a Regata do Atlântico Azul. Ao todo, cerca de 20 barcos típicos participaram da competição que teve a sua partida no Gaio Rosário (concelho da Moita) às 8 horas da manhã, com chegada ao Seixal por volta das 13 horas. Após a competição foi oferecido um almoço convívio aos participantes e a entrega dos prémios ocorreu às 15h30 na Associação Náutica do Seixal. Além dos troféus aos primeiros colocados e dos atribuídos diplomas de participação, foram sorteadas, entre os competidores, três viagens a Bruxelas. Quanto à parceria com o Seixal, o presidente do Centro Náutico, João Gregório, explicou a importância do empenho dos dois concelhos para a divulgação da actividade náutica através dos barcos tradicionais. “Estamos empenhados em divulgar a nossa actividade, mas, se estivéssemos fechados no concelho, isto não iria acontecer. O Seixal também tem tradição histórica relacionada com os barcos típicos. Assim sendo, é importante sensibilizar as Câmaras Municipais dos concelhos, no sentido de nos ajudarem na grande divulgação dos barcos tradicionais. Ao fim ao cabo, estamos a ligar dois concelhos e a desenvolver toda a actividade dos barcos tradicionais”, justificou.»
Por
GABRIELA NOGUEIRA,
in [
JORNAL MARGEM SUL], edição de 17-Ago-2007.